Cabedelo, na Grande João Pessoa, passou a ser monitorada à distância por integrantes do Comando Vermelho instalados no Rio de Janeiro, segundo investigações da Polícia Federal e do Ministério Público da Paraíba. De acordo com as apurações, a facção usa câmeras clandestinas para acompanhar a rotina da cidade, 24h por dia, e interferir em decisões locais, incluindo ações dentro da administração municipal.
Nos últimos anos, mais de dez operações foram deflagradas para investigar corrupção, organização criminosa e desvio de recursos públicos em um município com pouco mais de 60 mil habitantes.
As investigações apontam que o crime organizado se infiltrou em setores estratégicos da prefeitura e passou a influenciar diretamente a vida dos moradores.
As investigações indicam que o monitoramento da cidade ocorre a partir do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Áudios e vídeos obtidos pela polícia mostram integrantes da facção acompanhando imagens de dezenas de câmeras espalhadas por ruas, becos e áreas residenciais. Um dos investigados afirma, em vídeo: “Oi, família. Minha visão de cria aqui. Só paz e tranquilidade”. Para os investigadores, o esquema funciona como um “home office do crime organizado”.
O nome que aparece com frequência nas apurações é o de Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka. Segundo a polícia, ele começou a atuar em facções na Paraíba e fundou a Tropa do Amigão, ligada ao Comando Vermelho no Nordeste. Fatoka acumula 13 mandados de prisão por tráfico de drogas, homicídios e organização criminosa. Ele fugiu do Presídio de Segurança Máxima da Paraíba em 2018 e, após ser recapturado, rompeu a tornozeleira eletrônica no mesmo dia em que foi colocado em liberdade, em 2022.
Mesmo foragido no Rio de Janeiro, a polícia afirma que ele continua dando ordens sobre Cabedelo. Em áudios, fala sobre a expansão da facção para áreas da capital paraibana e usa o termo “ponteamento”, que, segundo a investigação, significa mapear território e eliminar rivais. Quintans afirma que esse controle permite que o grupo atue com segurança e estabilidade.
Nas ruas da cidade, pichações com referências ao Comando Vermelho e a Fatoka indicam domínio territorial. Imagens analisadas pela polícia mostram grupos armados circulando por bairros residenciais e efetuando disparos para o alto. Em um vídeo, um homem afirma: “Tropa do amigão tá na pista”.
As câmeras clandestinas, chamadas de “besouros”, são usadas para alertar sobre a presença de rivais ou da polícia. O comandante de batalhão da Polícia Militar da Paraíba, tenente-coronel Luiz Antônio, explica que os equipamentos costumam ser camuflados em postes, árvores e estruturas metálicas. Durante operações, policiais relatam que sabem estar sendo observados em tempo real.
O controle da facção também alcança a organização comunitária. Vídeos mostram criminosos acompanhando reuniões de moradores e avisando sobre circulação armada durante a madrugada. Em uma das gravações, um integrante diz que a presença do grupo ocorre “em prol de defender as nossas vidas e as vidas de vocês”.
No Rio de Janeiro, áudios indicam que Fatoka considera as áreas dominadas por facções como locais seguros para foragidos. O secretário Victor dos Santos avalia que esse cenário reflete a ausência histórica do Estado em determinados territórios. Dados mostram que o número de foragidos de outros estados presos no Rio aumentou entre 2022 e 2025.

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