segunda-feira, 11 de maio de 2026

Como nasce o medo: CV instala célula do tráfico em área da milícia em Jacarepaguá e aterroriza moradores

 


O grito veio pouco antes da meia-noite. Em disparada pela Estrada Virgolândia, em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio, jovens armados anunciavam a mudança de poder como quem marca território: “Agora é o Comando!”. Os tiros para o alto ultrapassavam os muros das casas enquanto famílias se preparavam para o réveillon de 2026. Desde então, relatos de moradores obtidos pelo GLOBO revelam que bastou pouco mais de um mês para o Comando Vermelho (CV) consolidar sua presença num trecho de aproximadamente 55 mil metros quadrados naquela área, entre a Estrada Santa Maura e a Rua Abadiana, região historicamente dominada pela milícia, próxima à comunidade Asa Branca, controlada há mais tempo pelos traficantes.


Mais do que uma simples troca de domínio, o que se viu ali, em tempo real, foi o surgimento de uma célula da segunda maior facção do país, que nos últimos anos trava guerras para expandir territórios não só no Rio, mas também em outros estados. Sem barricadas e sem uma estrutura ostensivamente estabelecida, a ocupação avançou de forma improvisada, mas suficiente para alterar a rotina, espalhar uma nova lógica de medo, sufocar o comércio local e levar trabalhadores a abandonar negócios construídos ao longo de décadas. — Eu fechei tudo porque fiquei com muito medo. Eles deram muitos tiros para o alto, gritavam. Nunca tinha visto nada parecido com isso aqui. Foi assustador — relata uma moradora. — Eu fechei tudo porque fiquei com muito medo. Eles deram muitos tiros para o alto, gritavam. Nunca tinha visto nada parecido com isso aqui. Foi assustador — relata uma moradora.


Os homens que percorriam as ruas naquela noite não eram desconhecidos. Segundo relatos de moradores (que pediram para não serem identificados por medo de represálias) e informações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), muitos cresceram na região. São filhos de vizinhos, jovens que conviveram durante anos com a população do lugar antes de assumirem funções ligadas ao CV. Os nomes de infância foram substituídos por apelidos, e a intimidade virou instrumento de poder. — Ficou pior a partir do fim do ano de 2025. A maioria é adolescente. Eles começaram a andar armados pelas ruas e, depois, a cobrar da gente muito dinheiro para mantermos nossos negócios abertos — disse um comerciante. 
Os números do próprio 31º BPM (Recreio dos Bandeirantes) ajudam a dimensionar a pressão do crime na região. Só em janeiro deste ano, o quartel apreendeu 22 armas de fogo — o maior volume para o mês desde 2003. Já as apreensões de menores infratores chegaram a 75 no primeiro trimestre, sendo 36 apenas na região do Recreio, aumento superior a 20 ocorrências em relação ao mesmo período de 2025.


Em uma das aparições recentes, os criminosos chegaram num Volkswagen Gol vermelho, de onde desembarcaram ao menos sete homens armados. Logo atrás, motocicletas faziam a escolta do grupo. Relatos apontam que o bando já extorquiu dinheiro de ao menos oito estabelecimentos somente nas ruas Pintibu e Abadiana e nas estradas Virgolândia e Santa Maura. 







Segundo comerciantes, a prática não ocorria da mesma maneira sob o domínio anterior da milícia. No primeiro dia de cobrança, homens armados conhecidos da vizinhança apareceram exigindo dinheiro sem sequer estipular um valor fixo. 
— Ele falou que tinha que ter o dinheiro e que, se não tivesse, iria fechar a loja. Ficamos com muito medo, nos mostraram a arma. Foi de um dia para o outro, de repente — conta uma comerciante.


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