Autoridades da América Latina vêm reforçando medidas de prevenção diante do avanço do fentanil ilegal na região. Nos últimos anos, países latino-americanos ampliaram treinamentos policiais, endureceram penas, atualizaram legislações e passaram a monitorar novas drogas sintéticas de alta potência, como nitazenos e xilazina.
Especialistas alertam que o principal risco é a mistura do fentanil a drogas como cocaína, LSD e canabinoides sintéticos, estratégia usada pelo crime organizado para potencializar efeitos e aumentar o poder viciante das substâncias. Em vários países do Cone Sul, incluindo Brasil, Chile, Peru e Argentina, o opioide tem circulado principalmente em ampolas desviadas de hospitais e sistemas públicos de saúde.
No Chile, mais de 2 mil ampolas foram apreendidas apenas em 2024. Já no Peru, a polícia desmantelou neste ano uma quadrilha especializada na venda clandestina de medicamentos como fentanil, morfina e tramadol, além de realizar a maior apreensão da história do país: 6 mil ampolas que tinham como destino os Estados Unidos e a Holanda.
No México, apontado pelos EUA como principal centro produtor do fentanil ilegal, o consumo também cresce em estados próximos à fronteira americana. Dados do serviço forense de Mexicali apontam que 20% dos corpos analisados entre 2022 e 2025 tinham presença do opioide.
A apreensão de fentanil durante uma operação da Polícia Civil na Lapa, na Região Central do Rio, trouxe à tona um novo alerta sobre o avanço silencioso dos opioides sintéticos no Brasil. Na quinta-feira, agentes da Polinter prenderam três suspeitos de integrar o tráfico na Travessa do Mosqueira, área dominada pelo Comando Vermelho. Segundo a polícia, os criminosos tentaram fugir por telhados de casarões abandonados usados como pontos de venda de drogas. Durante a ação, os agentes apreenderam cinco tubos contendo fentanil, totalizando cerca de 1 grama da substância, embalado como MDMA, droga sintética conhecida popularmente como ecstasy. Apesar da quantidade parecer pequena, especialistas ressaltam o alto poder letal do opioide. De acordo com a European Union Drugs Agency (Euda), a dose potencialmente fatal de fentanil em humanos é estimada em apenas 2 miligramas, cerca de 500 vezes menos do que o volume apreendido na Lapa. O opioide sintético é cerca de 100 vezes mais potente que a morfina e 50 vezes mais forte que a heroína.
Investigações conduzidas em estados como São Paulo e Espírito Santo apontam que traficantes vêm utilizando opioides para potencializar os efeitos de drogas já consolidadas no mercado, como a cocaína. O objetivo seria aumentar o potencial de dependência química e reduzir custos, usando menor quantidade da droga original.
Segundo o delegado Tarcísio Otoni, do Departamento de Narcóticos da Polícia Civil do Espírito Santo, todas as apreensões realizadas até agora no estado indicam que o fentanil chega ao mercado clandestino brasileiro principalmente por meio do desvio de ampolas hospitalares.
— Nossas operações têm indicado que o fentanil tem sido utilizado de duas formas pelo crime organizado: seja misturando a outras drogas para potencializar os efeitos, e também na sua forma pura — afirmou o delegado.
A primeira apreensão da droga em um laboratório do tráfico no Brasil ocorreu em 2023, em Cariacica, no Espírito Santo. Desde então, autoridades vêm monitorando o aumento de ocorrências envolvendo opioides sintéticos e substâncias ainda mais potentes, como os nitazenos, encontrados recentemente em apreensões em São Paulo.
Especialistas da área da saúde alertam que o principal risco é justamente o consumo involuntário do opioide em drogas adulteradas. O pesquisador Francisco Bastos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), afirma que o tráfico costuma testar novos produtos conforme avalia a resposta do mercado e da repressão policial.
— É difícil para a gente que é da área da saúde compreender a lógica do mercado ilegal, porque é como se um cortasse o efeito do outro. Os opioides cortam aquele pico que a cocaína dá, e por outro lado, a cocaína corta a possível baixa que você tem quando usa opioide — explica ao GLOBO Francisco Bastos, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e autor de alguns dos principais levantamentos sobre fentanil no Brasil. — De uma forma geral, o tráfico sempre faz teste de mercado e também da repressão. O crack, por exemplo, surgiu assim. Se a repressão estiver frouxa e o mercado for promissor, o traficante vai para lá.
Nos Estados Unidos, o fentanil é o principal motor da chamada epidemia dos opioides, responsável por dezenas de milhares de mortes anuais por overdose. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) apontam que cerca de 71 mil americanos morreram em 2021 em overdoses relacionadas ao opioide sintético.
A PF (Polícia Federal), em conjunto com a Receita Federal, realizou a primeira apreensão de fentanil da história de Pernambuco, droga que vem provocando milhares de mortes por overdose na América do Norte, especialmente nos Estados Unidos e no Canadá.
Uma jovem de 20 anos foi presa em flagrante no bairro do Janga, em Paulista, Região Metropolitana do Recife, durante a operação de combate ao tráfico interestadual de drogas. Neste ano, o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) detectou a presença de fentanil em amostras de sangue de usuários na região de Campinas. Surpreendentemente, ao serem atendidos, estes indivíduos não tinham consciência de terem ingerido a substância, que possivelmente foi utilizada na mistura da cocaína e do K2, uma designação genérica de substâncias sintéticas, que inclui canabinoides sintéticos.





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