
'Índio do Jardim Novo' - chefe do tráfico
Uma operação da Polícia Civil realizada nesta sexta-feira no Jardim Novo, em Realengo, Zona Oeste do Rio, lança luz sobre a estrutura do tráfico de drogas na região — um sistema que, segundo investigações, vem se sofisticando e ampliando seu poder ao longo dos anos.
Informações obtidas pela polícia há alguns anos já revelavam parte do funcionamento interno da organização criminosa que atua na comunidade. Agora, as apurações mais recentes indicam um avanço ainda mais preocupante: a consolidação de uma aliança entre as facções Amigos dos Amigos (ADA), que domina o Jardim Novo, e o Comando Vermelho (CV).
O Complexo do Jardim Novo é formado pelas comunidades da Nogueira, Light, Minha Deusa e Cosme e Damião, compondo uma área estratégica para atuação criminosa na Zona Oeste.
De acordo com os levantamentos, o então chefe do tráfico na região, conhecido como “Índio”, costumava circular armado com um fuzil AK-47 e cercado por diversos seguranças, todos também portando fuzis — um indicativo claro do forte aparato bélico da facção.
A atuação criminosa no território segue regras rígidas. Para a realização de qualquer roubo na região, é necessária autorização prévia das lideranças do tráfico local. Em muitos casos, os próprios traficantes executam roubos de cargas e veículos, já com o aval da organização. Os valores arrecadados com a venda de cargas roubadas levadas para a comunidade são divididos exclusivamente entre os participantes diretos dos roubos e os líderes do tráfico, sem qualquer repasse aos demais integrantes da facção.
A rotina interna também é organizada em escala. Há registros de integrantes que cumprem jornadas de 24 horas de serviço, seguidas por 48 horas de descanso, iniciando o turno às 15h de um dia e encerrando às 15h do dia seguinte. A comunicação entre os membros do grupo é feita por meio de rádios comunicadores comuns, enquanto a segurança armada dos pontos de venda de drogas é realizada por criminosos que recebem, em média, R$ 450 por semana.
Segundo a Polícia Civil, a atual aliança entre ADA e CV transformou o Jardim Novo em uma das principais rotas para o avanço territorial das facções em comunidades da Zona Oeste.
As investigações apontam que a região é considerada estratégica por fazer divisa com áreas da Taquara e estar próxima à Cidade de Deus, território historicamente dominado pelo Comando Vermelho, o que favorece a integração operacional entre as facções.
As apurações também revelaram que o chefe do tráfico no Complexo do Jardim Novo é apontado como responsável por grande parte dos roubos de veículos e cargas na região.
Além disso, o grupo impõe uma rotina de intimidação à população, com ameaças constantes e extorsão de comerciantes por meio de cobranças ilegais. Os criminosos também controlam, de forma coercitiva, serviços essenciais como fornecimento de gás, água e internet. A atuação é marcada pelo uso de armamento de guerra e pela imposição do medo, ampliando o clima de terror entre moradores.
Com base no material reunido ao longo da investigação, a Justiça expediu diversos mandados de prisão contra os principais integrantes da organização criminosa, incluindo suas lideranças. Seis suspeitos foram presos durante a operação desta sexta-feira. A aproximação entre ADA e CV na Zona Oeste não se repete no Norte Fluminense, onde as duas facções seguem em confronto direto, especialmente na região de Macaé.
Mais recentemente, a prisão do traficante Celsinho da Vila Vintém, apontado como líder máximo da ADA, reforçou os indícios dessa aproximação após a polícia identificar sua ligação com Doca, considerado um dos chefões do Comando Vermelho.
O cenário revela uma mudança relevante na dinâmica do crime organizado no estado, com facções historicamente rivais atuando de forma coordenada em determinadas regiões, ampliando sua capacidade de expansão e controle territorial.




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