domingo, 12 de abril de 2026

Facções transformam crimes ambientais em nova fronteira do poder no Amazonas

 


Comando Vermelho e o PCC avançam sobre o garimpo, extração ilegal de madeira, grilagem e até tráfico de animais para financiar suas operações e expandir influência. Crime pressiona comunidades e desafia o Estado.

O ouro que sai do fundo do rio no sul do Amazonas não serve apenas para enriquecer garimpeiros ilegais. Esse e outros crimes ambientais, como extração ilegal de madeira, grilagem e tráfico de animais silvestres, financiam armas, pagam por droga importada do Peru e Colômbia e fortalecem facções criminosas que avançam seus domínios por meio do controle da floresta.

Dados reunidos no estudo Cartografias da Violência na Amazônia 2025 , do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicam que facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) passaram a tratar crimes ambientais como fonte estratégica de financiamento, lavagem de dinheiro, domínio regional e parte da engrenagem de poder.


Os pesquisadores observaram uma mudança no perfil do crime na região - antes concentrado na disputa pelas rotas do tráfico e, agora, focado na extração clandestina de recursos naturais da Amazônia.

Pelo menos três municípios já têm atuação de facções com foco em crimes ambientais, segundo o estudo:

Humaitá

Lábrea

Manicoré

O documento mostrou ainda que presença dessas organizações intensifica os conflitos socioambientais e coloca comunidades tradicionais e povos indígenas em situação de vulnerabilidade.

“Essas organizações chegam à Amazônia com interesse estratégico em controlar a cadeia do tráfico de drogas direto da produção. A partir do momento em que se inserem na economia ilegal local, passam a explorar outras possibilidades, como o garimpo, que permite reinvestir e lavar o dinheiro obtido com o tráfico.” disse Ariadne Natal, pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.


Segundo a pesquisadora, o enfraquecimento das instituições de fiscalização ambiental e de proteção indígena, sobretudo a partir de 2018, abriu espaço para que facções expandissem suas operações para os crimes ambientais. Além da participação direta na mineração e extração de madeira, também cobram sobre atividades ilegais exercidas em seus territórios de domínio.

Ariadne também explicou que o tamanho territorial do Amazonas, combinado a rotas fluviais e pistas aéreas clandestinas na mata torna a combinação entre tráfico e crimes ambientais facilitada para esses grupos.

Ao g1, o delegado de Polícia Federal Rafael Grummt, chefe da Delegacia do Meio Ambiente do AM, afirmou que o combate as facções exige ações integradas e coordenadas entre diversos órgãos do Estado, uma vez que tais grupos passaram a explorar atividades como o garimpo ilegal, o desmatamento.

Floresta como negócio
De acordo com o Coronel e membro do Instituto Brasileiro de Segurança Pública, Francisco Xavier, a expansão do CV e do PCC no estado busca fortalecer três pontos das organizações.


🔴 Necessidade de se expandir as atividades criminosas para além do narcotráfico;
🔴Uso do garimpo como esconderijo de criminosos foragidos da Justiça;
🔴Compartilhamento do sistema logístico do garimpo ilegal pelo narcotráfico. No 'sistema híbrido', drogas, ouro, madeira e armas circulam pelas mesmas rotas, utilizando a mesma infraestrutura.

"Há o direcionamento de 'investimentos' [do crime] para empreendimentos dedicados a explorar a pesca predatória e a extração de madeira, sobretudo em razão da baixa capacidade das instituições de segurança e de fiscalização ambiental em exercer um efetivo controle das incontáveis e imensuráveis áreas onde ocorre essa exploração ambiental", disse Xavier
O coronel frisa que essa incapacidade do Estado de retomar o controle do território traz consequências sociais graves às comunidades indígenas e ribeirinhas.
“Praticamente, em todas as terras indígenas amazônicas há o registro da atuação criminosa na exploração do garimpo ilegal que se utiliza, na maioria das vezes, do mercúrio como recurso para obtenção do metal precioso. Isso gera sérios riscos à saúde dos indígenas e ribeirinhos, como contaminação dos rios e dos peixes consumidos por essas populações", explicou.
Ouro ilegal é moeda do tráfico internacional
Segundo informações apuradas pelo g1, o ouro ilegal extraído dos garimpos, se tornou a principal moeda utilizada por facções criminosas para financiar a compra de pasta-base de cocaína no Peru e na Colômbia.
Investigações mostram que o narcotráfico está diretamente ligado a um portfólio de crimes ambientais que servem tanto para gerar recursos quanto para lavar o dinheiro.
Para o delegado da PF, Rafael Grummt, o enfrentamento ao crime organizado na Amazônia precisa ir além das prisões.
“Não basta prender indivíduos. É fundamental descapitalizar as facções, rastreando a origem do dinheiro e responsabilizando os destinatários”, afirma.

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