Um dos integrantes do grupo é Breno Barbosa Diniz, filho de PM que teria sido morto pelos comparsas em fevereiro deste ano
As mais de 2.300 mensagens de um grupo de WhatsApp de gerentes do tráfico em favelas do Comando Vermelho mostram a rotina de funcionamento e prestação de contas das bocas de fumo. O material — obtido pelo EXTRA após a reportagem do último domingo contar a história do sargento Francisco (nome fictício), pai de Breno Barbosa Diniz, de 24 anos, traficante da Cidade de Deus morto pelos comparsas — revela que Breno e outros gerentes utilizavam o grupo para trocar informações sobre as vendas em cada uma das dez bocas de fumo da Cidade de Deus. Esses levantamentos eram feitos pela manhã e à noite, nas trocas de “plantão”. O conteúdo arquivado, que abrange o período de 8 de agosto a 2 de dezembro de 2025, mostra como a quadrilha controla as finanças, monitora policiais e mantém a disciplina e a hierarquia.
Os responsáveis por reportar a quantidade de drogas vendidas no período do plantão devem seguir um padrão rígido, que foi estabelecido por Breno. Cada gerente do tráfico detalha o tipo de droga, a pesagem, o valor e a quantidade comercializada. “Aí, tropa, todos os responsáveis da mesa mandar assim agora, pra nós poder tá identificando cada preço vendido”, alertou o rapaz numa mensagem.
‘Firma’, ‘freguês’ e ‘camisas choradas’
As mensagens indicam a existência de pelo menos dez pontos de venda de drogas na Cidade de Deus, identificados como Vento, Vasco, Mercadinho, Amendoeira, Maraca, Bagdá, Croácia, Jarrão, Cocoricó e Fundão. Os gerentes das bocas de fumo tratam cada um delas como “firma” e os usuários de drogas como “fregueses”. “A firma que não tiver aberta ainda e tiver freguês manda vir no vento”, escreveu um traficante.
No dia a dia, os traficantes informam o valor total das vendas usando o termo “camisas choradas” para se referir ao volume total comercializado no dia. Outra gíria é "Cidade dos Porcos", termo usado pelos criminosos para se referirem à Cidade da Polícia, no Jacaré.
Em uma das mensagens, Breno determina que seja feita uma prestação de contas para cada tipo de droga: cocaína, crack, maconha e skank. Numa outra, o rapaz coordena os horários das trocas de plantão. “A meta é acertar de 8h às 20h, 9h às 21h ou 10h às 22h, no máximo”, escreveu.
Um outro traficante, que se identificava como FML AP, frisou que, se houvesse falha na contabilidade, faria “doer no bolso”. E reclamou: “Tão esperando o que pra se ligar? Bobão fica toda hora nessa, virei babá de bandido agora”.
Celebração pela morte
Breno ocupava uma função de destaque no tráfico local: era gerente de uma boca de fumo no conjunto habitacional conhecido como AP (Apartamentos) da Cidade de Deus, onde nasceu e foi criado. Cabia a ele coordenar a venda de drogas em pelo menos dez pontos e monitorar a movimentação policial no entorno da comunidade. No dia seguinte ao desaparecimento, parentes ouviram de traficantes da região que Breno foi considerado “X9”, termo usado para rotular informantes.



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