domingo, 15 de março de 2026

Investigações apontam que milícia faz parcerias com o TCP e trava guerras para sobreviver no Rio


 Após perder territórios para o Comando Vermelho, grupo intensifica confrontos com o intuito de preservar seus redutos, principalmente aqueles na Zona Oeste

Era fim da tarde da última terça-feira quando dezenas de homens armados invadiram a comunidade da Vila Sapê, em Curicica, na Zona Sudoeste do Rio. Usando fuzis e até drones para lançar granadas, os criminosos, que seriam associados à milícia, iniciaram um confronto com traficantes que dominam a região, numa tentativa de retomar a favela, historicamente controlada por paramilitares e invadida pelo Comando Vermelho. No mesmo dia, milicianos atacaram traficantes na comunidade Nova Palmares, em Vargem Pequena, tentando reassumir o controle da região.



Enquanto na Grande Jacarepaguá a milícia faz ataques para recuperar o protagonismo que perdeu para o Comando Vermelho nos últimos dois anos, pela Zona Oeste do Rio ela trava guerras sangrentas para manter o que hoje é um dos últimos grandes redutos das forças paramilitares na cidade, ao lado da Baixada Fluminense. Outro bastião do grupo é Rio das Pedras, no Itanhangá, cada dia mais vulnerável às investidas do tráfico. As investigações apontam que, para não perder mais territórios, a milícia está se transformando e fazendo parcerias para impedir o monopólio do CV.

Quando começou a tomar territórios do tráfico, no início dos anos 2000, formada majoritariamente por policiais, a milícia — que se autointitulava “Comando Azul”, em referência a uma das cores da Polícia Militar — tinha forte vínculo com agentes de segurança. Com o passar dos anos, o grupo se reinventou; hoje ainda conta com agentes e ex-agentes públicos em seus quadros, mas eles já não são maioria. O titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco), delegado Jefferson Ferreira do Nascimento, explica que uma das principais transformações foi o consórcio da milícia com o Terceiro Comando Puro (TCP).

— Nós notamos que eles começaram a fazer alianças pontuais com o TCP nessa tentativa de fazer frente ao avanço do Comando Vermelho. Em razão disso, eles se tornaram mais reativos. Antigamente, a polícia conseguia entrar com mais tranquilidade em uma área de milícia, quando comparado com regiões do tráfico. Hoje, não é mais assim — disse Nascimento. Um policial da 32ª DP (Taquara) explicou que essa parceria é feita na lógica de que “o inimigo do meu inimigo vira meu amigo”. Segundo ele, por ter perdido quase todas as comunidades da Zona Sudoeste — restando apenas Rio das Pedras —, os milicianos hoje precisam da força bélica do TCP para se impor diante de um CV sedento por monopólio.


— Hoje a milícia daqui (Zona Sudoeste) está “respirando por aparelhos”, muito longe de ser o que já foi um dia. São os que sobraram mesmo. Tanto que eles já não têm o aparato que tinham e contam com a ajuda do TCP para realizar as incursões — explicou o policial, sob anonimato.

A delegacia da Taquara já mapeou pelo menos duas comunidades em Curicica que estão divididas entre os dois grupos. Em Dois Irmãos e na Cabeça de Porco, metade do território é controlada pela milícia e a outra parte pelo TCP, numa harmoniosa convivência.

Vínculo ainda forte com as origens

Apesar disso, a chamada “identidade miliciana” permanece fortemente associada à origem do grupo. Também sob anonimato, um policial contou que, quando ocorrem prisões, é comum os criminosos tentarem estabelecer uma relação de proximidade, alegando que estão do mesmo lado. 

— Eles falam como se fôssemos irmãos, como se estivéssemos fazendo algo parecido. Na cabeça deles, eles também são policiais — relatou.

A força exercida por esses grupos voltou ao centro do debate nacional durante o julgamento dos mandantes da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. O relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, discorreu, durante a audiência, sobre a forma como essas organizações atuam para eliminar quem ameaça seus interesses e estabelecem influência política nos territórios. Condenados a 76 anos e três meses de prisão pelo crime, os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão são acusados de comandarem uma milícia na Zona Sudoeste.



Desde a morte de Marielle, em 2018, muita coisa mudou no reduto dos Brazão — a milícia perdeu quase todas as favelas na Zona Sudoeste, mas paramilitares mantiveram a hegemonia nos amplos territórios da Zona Oeste. A avaliação é da professora Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo ela, quando se observa toda a Região Metropolitana, os milicianos foram ultrapassados pelo Comando Vermelho no que diz respeito ao controle territorial.

Mas, ao se considerar controle e influência (áreas no entorno das favelas dominadas), as milícias ainda lideram. De acordo com a pesquisadora, o grupo ainda segue forte e mantém uma capacidade de cooptação do Estado e de agentes públicos superior à das facções criminosas do Rio. A pesquisadora ressalta que, embora o tráfico também tenha interferência na política e conexões com agentes públicos — como ocorreu nos casos do ex-deputado TH Jóias e do advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário estadual de Defesa do Consumidor —, essas alianças costumam ser mais pontuais: — As milícias possuem agentes públicos e integrantes das forças de segurança em seus quadros. Isso faz parte da origem histórica do grupo. Não à toa, atores ligados às milícias muitas vezes se tornam representantes daqueles territórios junto às forças políticas e passam a influenciar decisões. Eles têm uma enorme capacidade de coordenação das políticas públicas em suas áreas, algo que as facções do tráfico ainda não têm na mesma proporção.

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