segunda-feira, 16 de março de 2026

Investigação liga CV do Rio a projeto de expansão; acordos são feitos via 'conselhos permanentes', espalhados por vários estados

 


Uma investigação feita pela Polícia Civil revelou a estrutura montada pelo Comando Vermelho (CV) para articular alianças com outros estados e mediar conflitos entre faccionados, como parte de um projeto político de expansão de poder. Com conselhos permanentes montados em vários estados, formados por lideranças locais do tráfico, o CV se comunica diretamente com a cúpula que fica no Rio para alinhar todas as ações.

A partir da quebra de sigilo telefônico de vários chefes da facção, os policiais da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro identificaram que um traficante preso atuava como um “diretor de governança corporativa de conflitos regionais”, alinhando pactos entre facções e também intermediando conflitos entre criminosos de outros estados.


O responsável por esse papel era Arnaldo da Silva Dias, conhecido como Naldinho. Ele estava no Presídio Estadual Gabriel Ferreira de Castilho (Bangu 3) na época das trocas de mensagens. Além de atuar como mediador de alianças e conflitos, Naldinho já foi interceptado pela Polícia Federal em uma troca de mensagens determinando uma trégua nos roubos em razão de uma reunião, no Rio, em 2024, do G20, encontro de líderes das principais economias do planeta. Durante a elaboração do inquérito, os investigadores da Polícia Civil encontraram várias conversas em que Naldinho é procurado para resolver conflitos entre traficantes de outros estados. Em uma troca de mensagens de fevereiro do ano passado, uma pessoa não identificada relata a Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma situação em que um preso do Comando Vermelho (CV) é agredido por um interno do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Presídio Urso Branco, em Porto Velho (RO).

O episódio aconteceu durante um momento em que o CV e o PCC articulavam uma aliança visando a controlar as fronteiras do país. Na mensagem para Doca, o homem escreve: “Os mano [do CV] estão querendo avançar para cima desses camaradas, porém, em respeito a nós, eles estão aguardando um retorno, porém pedem uma solução do fato”.


Doca, usando um telefone identificado como “Deus é fiel”, responde: “Nós temos que colocar o Samurai (Naldinho) na linha para nós resolvermos logo essas paradas”. Em outra conversa, Doca manda uma comunicação do Conselho Permanente de Rondônia que ressalvava um pacto de não agressão com o PCC, mas alertava que, caso algum integrante da facção fugisse da conduta imposta, seria cobrado ato “a altura” pelo conselho.

‘Circulares’ da facção


As chamadas “circulares”, que são comunicados gerais emitidos pela facção em seus estados, eram repassadas no grupo para controle da cúpula e para o conhecimento de Naldinho, para que ele atuasse na resolução de conflitos. Em uma das conversas obtidas pela polícia, ele afirma estar “resolvendo… dos estados”.

Para a polícia, essa estruturação demonstra que existe um “fluxo decisório verticalizado, apto a dirimir conflitos e uniformizar diretrizes em âmbito interestadual”.

Na investigação, os policiais ainda observam que o nível de organização transnacional da facção mostra que há “um projeto político de expansão do poder do Comando Vermelho (CV), funcionando a execução como mensagem simbólica e operacional de submissão, reorganização hierárquica e consolidação do domínio do Comando Vermelho em âmbito nacional”. Além de Rondônia, foram identificadas mensagens de conselhos de outros quatro estados: Mato Grosso, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte. 

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