A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga a existência de perfis no TikTok que funcionam como verdadeiras concessionárias online de veículos roubados. Nas páginas, os criminosos exibem catálogos que incluem desde carros de luxo e motos de alta cilindrada até jet skis e retroescavadeiras. Os produtos são oferecidos por valores drasticamente abaixo do mercado legal e as postagens são acompanhadas por hashtags como "clone", em referência aos veículos adulterados.
O monitoramento identifica pelo menos três perfis ativos que ostentam o crime sem pudor. Um exemplo do prejuízo causado às vítimas é o caso de uma retroescavadeira, avaliada em quase R$ 700 mil, que é anunciada nas redes sociais por apenas R$ 15 mil. Os bandidos também oferecem serviços de placas clonadas e se vangloriam da habilidade em adulterar chassis para dificultar a fiscalização.
Um dos casos que impulsionou a investigação envolve uma motocicleta BMW roubada em setembro na Avenida Brasil, uma das vias mais importantes do Rio de Janeiro. Quatro meses após o crime, o proprietário localizou o veículo sendo anunciado em uma dessas plataformas. A identificação foi possível graças a um detalhe que passou despercebido pelos criminosos: um adesivo de Nossa Senhora Aparecida colado no bagageiro. O bem, que tem valor de mercado estimado em R$ 160 mil, estava sendo oferecido pelos bandidos por R$ 14 mil. Segundo o repórter Ádison Ramos, a dinâmica do crime virtual tem se tornado comum. Após o roubo físico, o veículo é modificado e inserido em catálogos digitais com alertas de "promoção", simulando o funcionamento de um comércio legítimo.
A retirada dos veículos negociados online ocorre, majoritariamente, dentro de territórios controlados pela facção criminosa Comando Vermelho. Imagens obtidas pela investigação mostram postagens com legendas que indicam a "entrega dentro do quadrado", acompanhadas por bandeiras vermelhas, em alusão à organização. Além das vendas locais, há registros de veículos enviados para outros estados, como o Ceará. As autoridades policiais, no entanto, enfrentam obstáculos tecnológicos para avançar nos inquéritos. Segundo o delegado Mauro César da Silva Júnior, a plataforma TikTok apresenta demora excessiva para colaborar. "A rede muitas vezes demora 50, 60 dias para responder às nossas demandas que não precisam de autorização judicial. Isso atrapalha muito as investigações", afirma.
O delegado André Neves, diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), reforça que a lentidão na identificação dos usuários, mesmo após decisões judiciais, acaba por fomentar a criação de novos perfis criminosos.

Sem comentários:
Enviar um comentário